traça

A árvore de Natal

Escrevi isso no final de dezembro e acabei deixando de lado, fosse por não ter betado, fosse por não ter certeza se queria realmente voltar a escrever, fosse porque sou um velho chato ranzinza e rabugento - FACTO! Mas... quem perguntou?

Enfim... taí, ficou meio água-com-açúcar, bem fora do meu estilo e também muito grande pra não dizer quase nada... ainda bem que não sou muito crítico.  ¬¬'

Ah! Também queria deixar só o link da fic que nem a Bruninha fez, mas não sei fazer isso. Então se alguém puder editar pra não ficar essa coisa enoooooooorme (não sei se tinha limite de páginas) eu-agradeço-PT-Saudações-Fui.

Projeto Fics and Arts
Tema: Família
Título: A árvore de Natal
Ship: Harry/Ginny

Autor: Rufus

Harry aparatou bem à frente da porta antiga e surrada de Grimmauld Place, 12. Desequilibrou-se momentaneamente ao sentir um dos pés deslizar sobre a neve que se acumulava nos degraus de pedra gasta, mas conseguiu se apoiar na serpente prateada esculpida como maçaneta. Mal teve tempo de se recuperar do pequeno susto e já sentiu o puxão brusco para frente, quando a porta foi aberta com um sonoro "clanque" e a cabeça enrugada de Kreacher surgiu no vão, à altura de sua cintura.

— Mestre Harry Potter! – exclamou a criatura, escancarando a porta e realizando uma exagerada reverencia, enquanto sinalizava com o braço estendido o caminho para que seu amo entrasse na casa – Nós o esperávamos, senhor.

O bruxo cumprimentou o elfo com uma breve inclinação da cabeça e se apressou em abrigar-se do vento gelado que lhe fustigava o corpo. Abriu o pesado sobretudo que usava e começou a despi-lo tão logo ouviu a passagem se fechando atrás de si.

— Onde está Ginny? Ela está bem? – perguntou, enquanto atirava a capa sobre os braços do elfo, que a aparou com um dos braços e já esticava o outro para receber o cachecol que ele agora desenrolava do pescoço.

— A senhora Potter está ótima! – respondeu o elfo com incontida satisfação – A senhora Potter está repousando em frente à lareira da sala – concluiu, com mais uma desnecessária reverencia.

Ginny se encontrava quase ao final de sua primeira gravidez e, não fossem as responsabilidades de Harry no Departamento de Aurores do Ministério da Magia, ele gostaria de passar estes momentos derradeiros permanentemente ao lado dela. Não que houvesse qualquer tipo de preocupação quanto ao seu estado, era certo que ela se encontrava mais sensível e dependente do que de costume, mas todos lhe diziam que isto era absolutamente normal. A realidade era que, apesar de ter conseguido esconder isto muito bem até o momento, Harry estava apavorado: não era nem de longe o tipo de medo que já experimentara antes, ao enfrentar Lord Voldemort – era muito pior!

O nascimento de seu filho iria concretizar o fato de que eles efetivamente haviam constituído uma família, e as responsabilidades e deveres que isso tudo acarretava o deixava apreensivo. Ele sempre se julgou preparado para enfrentar as forças das trevas – mesmo que, na verdade, não fosse bem assim – mas, criar e educar um filho, ser um bom marido e tornar-se o patriarca de uma família era algo que lhe gelava o sangue, causava náuseas e descompassava seu coração.

Ginny recebeu-o com um sorriso preguiçoso: estava sentada numa confortável bergère forrada com um puído veludo cor de vinho. Ela acomodara o corpo meio de lado na poltrona, de modo a amparar a barriga avantajada sobre uma pequena almofada, e descansava seus pés inchados sobre a pequena banqueta do conjunto. Pequenas labaredas se erguiam da lareira próxima e refletiam a luz de suas chamas no rosto e cabelos da futura mãe, envolvendo-a como se fosse uma aura de fogo.

— Você se demorou hoje, Harry – choramingou, enquanto ele se debruçava cuidadosamente sobre ela e lhe depositava um beijo nos lábios –, problemas no Ministério?

— Apenas um despacho de ultima hora – desculpou-se –, sinto te fazer esperar... tínhamos combinado alguma coisa? – perguntou, tentando dar naturalidade à questão, mas intimamente preocupado em ter esquecido algo importante.

— Ah, Harry... – ela fez um beicinho – tínhamos combinado de montar a árvore de Natal, hoje!

Ele disfarçou um breve suspiro. "Ainda bem que é só isso!", pensou satisfeito, apesar de não entender porque ela mesma não havia feito isso durante o dia, já que estava afastada dos Holyhead Harpies há meses, devido ao seu estado; ou ainda, porque não mandou que Kreacher o fizesse.

— Ora – respondeu o rapaz puxando a varinha do cós das calças –, então faremos isso agora mesmo!

Mal ele ameaçou erguer a varinha e ela o interpelou com uma expressão de incredulidade — O que está fazendo, Harry?

— Hein? Vou... convocar os... enfeites de Natal... e a árvore... – balbuciou, imaginando o que teria feito de errado.

— Harry! – ela exclamou pesadamente, se ajeitando na cadeira de modo a poder colocar os pés no chão – Essas coisas não se fazem com magia... temos que monta-la com nossas próprias mãos. É uma tradição!

Harry não se lembrava de como haviam feito nos anos anteriores, mas se isso satisfizesse a Ginny e a mantivesse tranqüila, para ele não seria um problema: — Certo – disse num sorriso –, mas... onde estão os enfeites do ano passado?

— Provavelmente no nosso quarto... em cima do guarda-roupa – ela respondeu após um instante de reflexão. – Kreacher estava fazendo uma faxina no porão quando a desmontamos no inicio do ano – concluiu, justificando a escolha do local numa casa tão grande.

— Ok! – ele concordou, enquanto apoiava a esposa que se levantava – Vamos fazer isso logo, então! – e desaparatou para o dormitório do casal.

Harry levou cerca de trinta segundos para se certificar que Ginny não havia aparatado com ele e, quando começava a imaginar o que teria acontecido, ouviu sua voz o chamando no andar de baixo da casa. Desaparatou de volta à sala.

— G-Ginny! Aconteceu alguma coisa? – indagou preocupado, ao ver que ela ainda permanecia à frente da lareira.

— Não, Harry... é que eu não estou mais aparatando por qualquer motivo: tenho receio que possa acontecer alguma coisa com o bebê!

Harry concordou que ela deveria ter razão, e passou os quinze minutos seguintes ajudando-a a subir até o quarto, tendo tido de carrega-la no colo durante um longo lance de escadas. Ele pensou, inclusive, em lhe sugerir que passassem a dormir no andar térreo até que ela tivesse o bebê, mas preferiu deixar essa conversa para depois que terminassem de montar a arvore.

— Deve ser aquela caixa de papelão no canto da parede – disse ela, apontando para o extremo oposto do cômodo, num canto escondido sobre o centenário armário de roupas – Pegue pra mim Harry, enquanto descanso meus pés – e deitou-se na cama, apoiando a barriga desta vez sobre um dos travesseiros.

O rapaz puxou um pesado baú que ficava aos pés da cama para poder subir nele e alcançar a caixa. O grau de dificuldade se ampliou porque a altura do baú não era o suficiente para que ele alcançasse o objeto, então ele teve que puxa-lo de volta ao seu lugar e arrastar uma poltrona que deveria pesar o dobro do peso do baú, e se encontrava no extremo oposto do quarto. A tapeçaria dificultava a locomoção dos móveis e, às vezes, se prendia nos pés da poltrona obrigando-o a parar e dar a volta no móvel para desprende-lo. Quando finalmente conseguiu alcançar a caixa, verificou que ela se encontrava prensada contra o teto, pois uma saca que continha cortinas empoeiradas havia sido empilhada sobre ela. "São as cortinas que trocamos no fim do inverno passado", lembrou-lhe Ginny, "Deixe-as no corredor para que Kreacher as lave: podemos doá-las para famílias menos favorecidas!".

Após levar o fardo até o corredor, conter um ataque de espirros causados pelo pó, arranhar os braços na madeira bruta do teto do guarda-roupa e sentir uma fisgada nas costas ao carregar a pesada caixa de papelão até a beira da cama, Harry não conteve um sorriso de satisfação para a esposa, mostrando-se orgulhoso pela tarefa cumprida.

— Você poderia ter tirado a caixa com magia – disse Ginny com naturalidade –, só não devemos montar a árvore com feitiços.

O bruxo retribuiu a observação com um sorriso amarelo e sentiu um estranho calor lhe subir às faces, mas preferiu não arengar pelo assunto. Ao invés disso, arrancou a fita adesiva que selava a caixa, dobrou suas abas e verificou que seu conteúdo era de... sapatos, roupas e os objetos mais diversos, mas... nada de enfeites de Natal.

Ele lançou um olhar desolado para Ginny que, arregalando os olhos para o conteúdo da caixa, disse com extasiada surpresa:

— Olha! Minhas botas de cano longo! Nem me lembrava mais que as tinha!

Harry tentou disfarçar a incredulidade de seu rosto, enquanto a mulher tentava enfiar um dos pares da bota em seus pés inchados, desistindo logo em seguida para apanhar diversos aros de pulseiras que também encontrara e enfia-los nos braços, para a seguir ajeitar os cabelos com uma presilha de osso que igualmente descobrira no interior da sortida caixa de papelão.

— Puxa, o broche que a Mione tinha me emprestado! Eu fiquei semanas procurando por ele! – ela balbuciava consigo mesma, aparentemente esquecida do motivo pelo qual haviam resgatado a caixa.

Repentinamente as feições da bruxa mudaram. Ela tinha apanhado uma bolota escondida a um canto da caixa e a ergueu lentamente, presa entre o polegar e o indicador, até a altura dos olhos, quase reverenciando o seu achado.

— É uma noz, Harry! – disse-lhe como se houvesse descoberto a cura para a varíola de dragão – Eu quero comê-la, Harry! – e seus olhos brilharam – Abra pra mim, Harry... abra pra mim!

Ele a apanhou entre as mãos e partiu sua casca, mas seu interior estava negro e estragado. Ele olhou silenciosamente para a esposa.

— Eu tenho que comer uma noz, Harry. Eu... preciso! – suas palavras beiravam ao desespero.

— Vou até a cozinha apanhar algumas e já volto, Ginny! – prometeu ele, satisfeito por saber que o desejo da mulher era por um fruto da estação.

— Não, Harry... você não entende? – ela o surpreendeu – Essa noz é de uma nogueira que temos lá n'A Toca... Eu preciso comer uma noz dessa árvore!

O bruxo aprendera já há algum tempo a não questionar os desejos de Ginny, e imediatamente ofereceu:

— Vou até A Toca e trago algumas pra você! Não demorarei quase nada!

— Não Harry! Eu mesma tenho que colhe-la da arvore... como sempre faço todo ano. Senão... não será a mesma coisa.

Resignado, Harry lhe ajudou a vestir seu casaco, touca, cachecol e luvas, calçar sapatos confortáveis e preparar uma bolsa com poções para enjôo, cólica e inchaço. Desceram lentamente para o andar de baixo, onde ele colocou novamente seu sobretudo, e caminharam até a lareira da sala onde ele apanhou um punhado de pó de flu num pequeno caldeirão.

— O que pensa que está fazendo, Harry? – interpelou-o a garota, cruzando os braços e batendo um dos pés no soalho nervosamente.

— Hã? Vamos pela rede de flu... você disse que não quer aparatar e está muito frio pra irmos de vassoura.

— Disse que não quero aparatar por qualquer motivo... mas, para irmos até Ottery St. Catchpole é a melhor maneira! – a lógica dela era inabalável.

Sem discutir, ele envolveu-a nos braços - para poder ampara-la em caso de necessidade - e desaparataram juntos, após uma pequena contagem para sincronizarem o feitiço e de terem concordado que iriam “no três”.

O sol de inverno começava a se esconder por trás da densa folhagem do bosque, que mantinha a estranha construção d’A Toca escondida de olhares mais curiosos, quando o jovem casal aparatou junto ao portão de madeira que dava acesso ao modesto jardim da propriedade. Harry olhou para a esposa, tentando detectar se tudo havia corrido bem durante a breve viagem, mas ela já se livrara de seus braços e corria até uma frondosa árvore que estendia seus galhos até quase uma das janelas da casa.

— Ginny! Harry! Que bela surpresa ver vocês por aqui! – saudou a Sra. Weasley, escancarando a porta da cozinha e correndo em direção à filha – Mal pude acreditar quando ouvi vocês aparatando! – ela completou.

Após a tradicional troca de cumprimentos e de Harry ter tido de subir aos galhos mais altos da velha nogueira para apanhar nozes o suficiente para encher o bojo do avental de sua anfitriã, pois não havia frutos nos galhos mais baixos, os três se dirigiram para o interior da casa, a fim de fugirem do frio e da escuridão da noite que chegava. Enquanto entravam, a Sra. Weasley virou-se para Harry e lhe cochichou:

— Ginny não deveria aparatar nesse estado... tenho receio que possa acontecer alguma coisa com o bebê!

O bruxo concordou com um gesto de cabeça, e achou melhor não se aprofundar no assunto. Logo estavam no calor aconchegante d’A Toca e, após conversarem sobre diversos assuntos, Ginny comentou que pretendiam montar a árvore de Natal quando sentiu o desejo pelas nozes.

— Ora – disse a Sra. Weasley encantada –, então vamos aproveitar e montar a nossa árvore! Faz dias que desejo fazer isso, mas Arthur e Percy têm ficado até mais tarde no Ministério e George praticamente se mudou para a loja...

— É claro que a ajudaremos a montar a árvore, mamãe! – disse Ginny com um sorriso, e voltando-se para o marido: – Não é mesmo, Harry?

— C-claro que sim! – respondeu o rapaz – Onde está a árvore?

— Está no bosque! – disseram as duas em coro e, em seguida, olharam uma para a outra e sorriram pelo ocorrido.

— Você deve pegar um machado no celeiro e cortar um pinheiro do bosque no alto do morro, Harry! – explicou-lhe a Sra. Weasley – É uma tradição da nossa família!

— Uma tradição? – resmungou o bruxo – C-certo... certo!

Foi uma longa noite para Harry.

Após desistir de usar sua varinha, com receio de violar alguma tradição e enfurecer a dupla de ruivas, teve que caminhar no escuro e na neve alta até o bosque, cortar um pinheiro que tivesse a mesma altura da sala de visitas, arrasta-lo até A Toca, subir até o sótão para apanhar os enfeites de Natal e ajudar as duas bruxas com a decoração da árvore e da casa.

Já era noite alta quando ele e Ginny voltaram para Grimmauld Place, 12 voando na velha motocicleta enfeitiçada de Sirius – que o Sr. Weasley havia reformado – e, após carregar a esposa até o seu quarto, ajudá-la no banho e a vestir-se para dormir, ele finalmente pôde repousar a cabeça no travesseiro e sentir o torpor do sono tomar conta de si.

E, durante aquela sensação de bem-estar que domina o corpo e acalma a alma quando estamos entre o mundo real e o dos sonhos, Harry constatou que apesar de todo o trabalho e cansaço que tivera naquele dia ele estava feliz. Estava feliz porque se sentia bem realizando as vontades de Ginny, estava feliz porque não se lembrava de participar de nenhuma tradição familiar durante sua infância com os Dursley e agora tinha essa oportunidade, estava feliz porque já não tinha mais medo: ele agora tinha uma família.

— Harry! – Ginny sussurrou repentinamente ao seu ouvido, meio dormindo meio acordada.

— Hein? O quê? – assustou-se o bruxo, retornando repentinamente do mundo dos sonhos.

— Harry... amanhã teremos que montar nossa árvore de Natal!

FIM